domingo, fevereiro 19, 2012

Crônica* sobre Medo, Tristeza e Raiva



O medo é bom. O medo defende. Uma ferramenta de sobrevivência sem a qual estaríamos à mercê dos riscos da natureza, dos outros e de nós mesmos. Ele atrapalha nossa vida quando se torna onipresente. Quando toma de assalto nossa liberdade de decidir, fazendo-nos reféns de seus caprichos. E nosso medo pode ser muito caprichoso. Criança mimada, chorosa e cheia de birra e manha. O medo tem o seu lugar, mas muitas vezes é preciso lembrá-lo disso. O medo é gelo. Congela sonhos, esfria relacionamentos, paralisa projetos, adormece decisões, mata aspirações no ninho. Ou é fogo. Arde antes mesmo de acender a faísca. Queima iniciativas, consome desejos e esperanças. O medo é fome. Turva a visão, interrompe o movimento, abafa o crescimento. É falta de ar. É o desespero da asfixia. Cala a voz, tira a força do grito.
    Se cedermos ao medo ele faz questão de chamar sua prima-irmã tristeza. Essa responde ao seu chamado sem demora e dificilmente recusa o convite. A tristeza conforta. Mas só traz verdadeiro conforto quando é tristeza de luto. Pois o luto verdadeiro e legítimo é rito de transformação, de passagem. Quando não é assim, torna-se conforto de isopor, alimento fastfood. A tristeza embota a alma e desbota o rosto. A tristeza é cinza. Empana os olhos, tirando o brilho e a cor da paisagem, esteja esta dentro ou fora de nós mesmos. A tristeza é amarela. Pode ser um amarelo-desânimo, amarelo-fim-de-tarde-fim-da-linha, amarelo-dolorido ou amarelo-desencontro. Em quadros avançados vira amarelão-depressão. A tristeza é branca. Uma brancura que cega. Não mostra, não define, não traz contornos, confunde e enlouquece.
    A tristeza parece o fim, mas às vezes passa e depois dela chega sua meia-irmã raiva. Nesse ponto do trajeto macabro temos diante de nós dois caminhos. Ou optamos por mirar nossa raiva para fora de nós. Podendo ter como alvos em potencial os outros. Pessoas que convivem conosco, que em geral, são as vitimas mais comuns de nossa raiva. Pode ser contra Deus, o destino, a vida, a sociedade, o governo, a falta de sorte. O outro caminho é inverso. Podemos irar-nos contra nós mesmos. Elegemo-nos como culpados, julgados e condenados a morte. E iniciamos o projeto de suicídio que pode ser lento ou rápido. Seja qual for o caminho escolhido seu desfecho não trará bons frutos. Só uma colheita maldita.
     Raiva também pode ser uma defesa, uma estratégia de sobrevivência que em alguns momentos da vida é útil. Fora desses poucos momentos a raiva é um estorvo. É um Panzer desgovernado passando por cima de tudo, de todos e de nós mesmos. É uma Kalashnikov sem trava e sem limite de munição. É um arsenal de minas que enterramos, formando nosso próprio campo minado, onde andamos esquecidos como se estivéssemos andando no quintal de casa. Às vezes convidando desavisados a caminharem conosco.
    Ninguém está livre de sentir tudo isso. Mas decidimos se cultivamos ou não esses sentimentos. Somos nós que decidimos que tipo de vida levaremos ou se seremos levados por ela. Fácil não é, mas nunca ninguém disse que seria.

* Crônica escrita por Elineu R. Tomé

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